domingo, 6 de junho de 2010

Jornalismo online enfrenta três grandes dilemas

Por Carlos Castilho


Participei recentemente de dois eventos sobre jornalismo online e deles sai com a convicção de que este tipo de nicho informativo enfrenta três grandes desafios, que podem determinar o sucesso ou o fracasso de quem atua ou pretende atuar neste setor.

Os três desafios são:

1) Diálogo com os programadores

2) Interatividade com o púbico

3) Sustentabilidade financeira

Nenhum deles é mais importante do que o outro e a sobrevivência de um projeto de jornalismo online depende das respostas que forem dadas aos três desafios, independente de ordem cronológica ou de critério de relevância.

O dialogo com os programadores é essencial porque sem ele, o jornalismo online se torna uma cópia piorada do jornalismo impresso. As novas tecnologias de informação e de comunicação formam a base do diferencial da notícia publicada na Web em relação à mesma notícia num telejornal, na rádio ou no papel.

O jornalista na Web, profissional ou amador, precisa conhecer as novas tecnologias para poder aplicá-las na produção de notícias. Mas é evidente que ele não pode conhecer tudo, porque os softwares encontram-se em permanente evolução e atualização. Daí a necessidade de trabalho em equipe onde as várias habilidades se compõem para viabilizar um produto final inovador e diferenciado.

O jornalismo multimídia, por exemplo, é simplesmente impraticável sem o trabalho em equipe. Acontece que trabalhar em grupo é uma habilidade pouco valorizada nas redações convencionais e um item ausente dos currículos de quase todas as faculdades de comunicação. O diálogo entre jornalistas e programadores só funciona se for em pé de igualdade, pois um depende do outro para produzir uma noticia na Web.

Os jornalistas precisam reconhecer que sem as novas tecnologias é impossível produzir animações ou infográficos, por exemplo, da mesma forma que o valor do trabalho do programador está na razão direta da carga informativa e da usabilidade do programa desenvolvido.

Além da conversa com os programadores, os jornalistas na Web estão sendo forçados também a ter que conversar com os usuários de páginas informativas. A interatividade com o público é um dos principais fatores de fidelização de usuários a um site jornalístico, num segmento onde o número de opções informativas cresce vertiginosamente.

A conversa com o visitante estimula o retorno e a formação de uma audiência que é essencial na sustentabilidade financeira da página jornalística. Mas o leitor tem uma função ainda mais relevante, que é a de parceiro na produção de notícias, o que sé é possível quanto o profissional e o usuário criaram uma base mínima de confiança mútua.

O problema é que raríssimas escolas de jornalismo e redações ensinam como relacionar-se com o público. Uma exceção é a BBC (rede britânica de televisão) que criou o cargo de Administrador de Comunidades cuja função é treinar e aconselhar os jornalistas no relacionamento com redes sociais e usuários individuais.

Sem este treinamento para interagir com o público, os profissionais do jornalismo continuarão a ver as redações como uma espécie de trincheira que os separa de leitores, ouvintes, espectadores e internautas. Redações isoladas são mortais para qualquer projeto informativo na era da internet.

E finalmente temos o grande dilema de como tornar rentável a produção de notícias na Web. Este talvez seja o mais difícil dos três desafios do jornalismo online porque ele envolve um contexto muito mais amplo do que o da simples produção e distribuição de informações.

Aqui estamos falando de uma possível reconfiguração geral do modelo jornalístico vigente há décadas. Hoje, os jornais impressos e a TV convencional estão perdendo público e anunciantes, enquanto o jornalismo e o vídeo na Web crescem exponencialmente mas sem o correspondente aumento da receita publicitária. Esta é uma situação insustentável tanto para a imprensa convencional como para o jornalismo na Web.


São cada dia mais fortes os indícios de que a solução vai envolver uma recombinação das práticas administrativas e publicitárias de toda a mídia (on e offline) com uma forte participação dos usuários na definição das estratégias a serem seguidas. Também cresce a percepção de que não haverá uma solução única, mas sim estratégias para cada caso, o que significa muita reflexão e debate tanto entre os executivos das industrias da comunicação, como jornalistas profissionais e também do público.




Texto na íntegra do Observatório da Imprensa

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